Fotografia © Laura Azevedo, PinkDialogues

Uma das curiosidades que mais sentimos em relação a alguém criativo diz respeito, precisamente, à inspiração. O que o leva a criar algo tão bonito, irreverente ou emotivo? De onde vem tanta inspiração? Quem não é criativo quer saber como é que a inspiração funciona. Quem é criativo tem curiosidade em saber se ela funciona da mesma forma com os outros.

Mas o que nos inspira varia de pessoa para pessoa. E em relação à escrita, por exemplo, e falando por mim, se leva algum tempo até percebermos quais são aquelas coisinhas que nos fazem sentir uma vontade avassaladora de escrever, a verdade é que, quando percebemos que coisas são e o efeito que têm em nós, acaba por ser fácil usá-las conscientemente para despoletar a inspiração.

É o que acontece comigo.

E o que me leva a sentir inspiração para escrever?

1. A necessidade de escrever sobre algo. — Este é um gatilho previsível, mas é o gatilho mais forte de todos. Se há dias em que não apetece nada escrever, em que nenhuma ideia surge, há outros em que sinto uma vontade compulsiva de escrever. A necessidade de escrever sobre um determinado assunto ou extravasar uma emoção é quase mais forte do que eu. Nessas alturas, não escrevo por estar inspirada. Escrevo por precisar. É quase uma necessidade física, emocional, que me permite organizar e entender as minhas próprias emoções. É a minha terapeuta de serviço, e é grátis.

2. O prazer de escrever. — Há quem sinta prazer a comer, a dançar, a ver filmes e há quem sinta prazer a escrever. Depois, há pessoas, como eu, que sentem prazer em todas estas coisas. Há dias em que me sinto deslumbrada por isto: carregar nas teclas, ver as letras a aparecerem uma à frente das outras, a formarem frases; as frases, depois, contarem histórias, com personagens, com emoções, com contexto. Tudo isto é criado a partir de uma primeira letra que teve a ousadia de romper o fundo absolutamente branco. E a seguir à primeira vêm tantas. Tudo é milagroso na escrita: as letras, os pontos finais, as pausas. É como fazer magia. Ao fim de tantos anos a escrever, ainda sinto que escrever é mágico. Nesses dias, mesmo que não tenha nada em mente para escrever, começo a brincar com as palavras, arrisco uma primeira frase, e a magia acontece.

3. Ler. — Ler os outros é, para mim, outro dos gatilhos mais fortes para escrever. Muitas vezes, basta-me abrir um livro numa página ao calhas, ler duas páginas e sentir logo o bichinho da escrita. Quando estou a ler livros que adoro, são tantas, e tantas, as vezes em que estou sempre a saltar entre a leitura e a escrita. E não raras vezes acabo por deixar uma leitura em pausa porque fiquei tão inspirada que só consigo escrever. Mas isto não acontece só com livros. Felizmente, inspiro-me com pouco. Rótulos de produtos de limpeza, notícias e mensagens de telemóvel também servem.

4. Olhar para fotografias giras e imaginar. — Este é um método que utilizo quando me apetece escrever sem esforço. Pesquiso fotografias fortes, emotivas. Depois, há um dia em que, em poucos minutos, escrevo um texto diferente para cada uma. É um exercício comum em escrita criativa. A inspiração é quase imediata, motivada pela primeira emoção que sinto ao olhar para a fotografia ou pela história que imagino acontecer entre os fotografados.

5. Ouvir em loop as «minhas» músicas. — Se a música não existisse, eu não teria escrito 90‰ dos textos que escrevi em toda a minha vida. Para mim, é a maior fonte de emoções que, depois, posso trabalhar para escrever: nostalgia, saudade, tristeza, força, determinação, sensualidade, alegria. Tenho músicas guardadas em playlists quase temáticas — cada uma desperta um tipo diferente de emoções. Umas fazem-me sentir alegre. Outras relembram-me fases da minha vida, sentimentos, pessoas, histórias. É frequente ouvi-las e sentir vontade de escrever. Muitas vezes, utilizo-as até como gatilho para despertar a inspiração.

6. As conversas do dia a dia. — As conversas do dia a dia, inesperadas, simples, são bastante ricas em emoções espontâneas, reações genuínas, confidências inesperadas. São ainda mais enriquecidas pelas expressões do rosto, pelos gestos, pelo olhar, pelas pausas naturais do discurso. Para mim, que sou bastante observadora e, de forma muito natural, estou muito atenta a todos estes pormenores, acabo por reter sempre algum pormenor ou informação que me faz sentir vontade de escrever — e transpor para o papel parte disso, dando mais realismo às personagens que crio.

7. As nossas histórias. — É impossível, enquanto pessoa que escreve, ficar indiferente a algumas histórias que me contam, a que assisto ou de que faço parte. Nós, escritores emotivos, somos ávidos de tudo o que tenha emoção, e vibramos quando estamos perante uma história real de arrepiar. «A Paixão Arrebatadora da Alice» foi escrita com base numa leitora. «A ti, que ainda pensas nele» também. Há vezes em que agarro em bocadinhos daqui e dali, misturo tudo num bolo de emoções e crio uma nova história: onde pode estar o contexto da Alice, os sentimentos do João e a minha maneira de ver o mundo. Acaba por ser e não ser real. No entanto, baseada em vários factos reais, acaba por ter tanto realismo que quem as lê acha sempre que são autobiográficas.

Estes são os meus 7 gatilhos principais para escrever. Outros autores terão outros. Apesar de haver esta ideia preconcebida, quase romantizada, de que um escritor só escreve movido por uma grande inspiração, a realidade é bem diferente. Na verdade, a inspiração é quase secundária. Tornamo-nos peritos em fazer com que ela aconteça, utilizando intencionalmente estes gatilhos a nosso favor para escrever mais um texto.

Para mim, mais importante do que sentir inspiração é estar predisposta a escrever. Parar, distanciar-me de tudo, pausar a vida e dizer: «Agora, vou escrever.» A partir daí, a inspiração logo me apanhará pelo caminho. Se eu tiver sorte.

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Criativa digital. Designer, ilustradora e licenciada em Comunicação. Freelancer. Algarvia de gema a viver em Londres. Fascinada por cores, aromas doces e cidades grandes. Curiosa e uma sarcástica incurável. Autora do site e do livro «Apetece(s)-me», que falam de amor.

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