Eu era uma miúda. Levava metade do meu tempo acordada a sonhar com todas as coisas que, um dia, queria fazer; com a vida que, um dia, imaginava ter e com as pessoas com que, um dia, desejava ter o privilégio de me cruzar. Todos os minutos dos meus dias eram minutos para isso, para sonhar, e para ouvir música. Por isso, todas as madrugadas eu estava ali, deitada na minha cama, de olhos fechados, de luzes apagadas, a ouvir as minhas músicas preferidas. Na música, encontrava o meu refúgio, o trampolim para sonhar e o sorriso que, comigo de olhos fechados, se desenhava no meu rosto — enquanto o mundo, esse, dormia, sem saber que eu ainda estava ali, assim, acordada, com o coração a bater depressa no meu peito adolescente.

Um dia, pensava eu, iria crescer, tornar-me mulher, amadurecer. Um dia, iria sair de casa dos meus pais, iria ter outros amigos, iria talvez ter filhos, iria ter uma profissão. Talvez, um dia, conseguisse publicar um livro, e fazer as minhas palavras chegarem aos outros. Talvez, um dia, viesse a ter a oportunidade de mudar de cidade. E talvez viesse a encontrar o meu lugar no mundo e a minha voz. Porque é isso que a adolescência é: o início da descoberta de nós próprios; um despertar para toda uma vida que ainda não conhecemos; uma pré-preparação para tudo o que aí vem e que, tantas vezes, é muito maior do que alguma vez imaginámos.

De sorriso nos lábios, Cranberries cantavam, em tantas e tantas dessas noites, aos meus ouvidos. Ouvia-lhes a melodia doce, a voz delicada, os acordes que dançavam no meu corpo parado. Suspirava fundo e sorria, com a certeza de que a música, quando assim, tão intimista, era a voz que eu ainda não tinha. A música era, e sempre, a minha companhia, a minha cúmplice. Ela era o sorriso, o suspiro, o abraço, as lágrimas, a voz e o coração. E eu era uma miúda, como tantas outras, que, um dia, iria ser uma adulta, como tantas outras, cheia de sonhos, de aventuras e de histórias para contar. Tudo o que eu desejava era que essas histórias valessem a pena. E que eu pudesse viver de coração pleno, com a certeza de que a vida poderia vir a não ser fácil, mas teria, pelo menos, de ser verdadeira, coerente com a minha forma de sentir e de ser.

E, nisto, a vida aconteceu. E, entre as minhas madrugadas cheias de melodias e os meus sonhos de miúda, passaram mais de 20 anos…

Hoje, uma semana depois da morte da vocalista dos Cranberries, Dolores O’Riordan, volto à miúda que eu era, através da sua música, e sinto esta explosão de emoções, dentro do meu peito, por todos os momentos e todos os sonhos que partilhámos juntas — com a certeza de que o tempo pode passar, a vida pode acontecer, mas a nossa essência pouco muda com o passar dos anos.

Continuo a ser a mesma miúda sonhadora de antes e continuo a desejar viver a vida com o mesmo coração cheio, coerente com quem sou e com o que sinto. Nem sempre o consigo, mas continuo a tentar e a acreditar que só assim as histórias da vida — as boas e as menos boas — fazem sentido. Só assim a vida vale a pena.

PS: Lá em cima, a minha música preferida, “Dreaming my dreams”, que também sonha, a tocar em loop. Dolores, obrigada por tudo.

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8 COMMENTS

  1. É delicioso ler-te!
    E como é bom continuarmos a sentir essa criança, essa adolescente que continua a viver em nós!

    • Obrigada, Maria! 🙂
      É delicioso ter-te por cá, a ler-me e a reagir! 🙂
      Beijinho

  2. Também é bom conhecer-te para além do teu corpo e da tua idade, e saber que também partilhaste a tua vida adolescente com os nossos amigos imaginários, os nossos ídolos, os nossos verdadeiros gurus” da vida, ao fim ao cabo, nascemos todos de sonhos que nos guiaram a alma para o resto das nossas vidas, que nos batizaram com o mesmo destino, que nos matizaram os desejos que hoje, passadas décadas, ainda subscrevem” os nossos ânimos e ensejos
    Pobres daqueles que nunca sonharam com quem hoje o são!

    • “Pobres daqueles que nunca sonharam” e que não sonham, no presente, diria eu! 🙂
      Obrigada, Rui, pela partilha! É bom desse lado haver alguém tão (ou mais) existencialista do que eu! 😀
      Beijinhos!

  3. Existir* é o único meio” de se perservarem os bons hábitos 😊😊 e de se evitarem os ruins rsrs 😊…nada a agradecer, nós deste lado das tuas palavras, é que agradecemos essa tamanha eloquência e clareza de espírito vindas de ti, de tal forma brilhantes, que nos revelam as escolhas com maior facilidade, pelo meio desta turbulenta vida, toda ela impregnada de objectivos tão chatos quão rigorosos rsrsrs. Abençoada escrita essa!!!! 😊

  4. Muito, muito bom o que escreves, Laura! E a verdade do teu sentir e a dos sonhos que continuam a comandar a tua vida, e que tão bem descreves, fazem dos teus textos uma delícia tocante, em que me revi… apesar de tantos anos já vividos.Parabéns!

    • Oh, muito obrigada! Fico feliz por saber que leste e que gostaste! Um beijinho grande, Hortênsia!

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